Literatura em Libras

de Rachel Sutton-Spence

Parte 4 - A relação entre a sociedade e a literatura em libras


22. Tradução de literatura em Libras

objetivo

22.1. Objetivo

Neste capítulo pensaremos sobre tradução de literatura: de literatura em português para a Libras ou de literatura em Libras para o português. Vamos pensar sobre as opções que existem para se levar uma narrativa ou um poema de uma língua para outra e sobre alguns desafios nesse processo. Lembramos que as traduções literárias entre Libras e língua portuguesa são feitas por ouvintes ou surdos, ou por tradutores ouvintes e surdos trabalhando em parceria.

lista de videos

Usaremos os seguintes vídeos:

22.2. Reconto, adaptação e tradução

É comum, quando falamos de literatura em Libras, dividi-la entre peças traduzidas, adaptadas e originais (MOURÃO, 2011). Neste capítulo, como vamos focar na tradução, não falaremos mais de criação original - além de destacar que a diferença entre tradução, adaptação e criação original não é tão claramente delineada, pois todas as traduções necessitam uma adaptação e têm um elemento de criação original por parte do tradutor. Além disso, podemos acrescentar um tipo de literatura em Libras que não é totalmente de origem surda, o reconto.

22.2.1. Reconto

Uma das principais características do folclore (dos contos de fadas, das lendas folclóricas e das piadas), é que cada pessoa pode recontar essas histórias do seu próprio jeito, desde que o enredo principal seja mantido, porque não existe uma versão “certa”. Retomando as ideias de Vladimir Propp (que vimos no capítulo 11), podemos dizer que as unidades da história são iguais, embora a maneira de contar seja diferente. Por exemplo, na fábula de Esopo A lebre e a Tartaruga, é importante informar que os dois animais concorrem, a lebre dorme e a tartaruga alcança antes dela a linha de chegada. Além disso, os outros fatos e as palavras que usamos para contar a fábula não importam muito. Cada reconto mantém o conteúdo básico dos originais, tanto em Libras quanto em português (ou em qualquer outra língua). Os tópicos são iguais, os personagens principais e os eventos fundamentais - até a estrutura geral – se mantém, mas o narrador tem a liberdade de contar como quiser.

Existem muitos contos, diversas histórias, lendas e piadas mundiais que vêm das tradições brasileiras da sociedade ouvinte e que são também contados em Libras pelos surdos. Vemos muitos exemplos de recontos em língua brasileira de sinais, nos contos de fadas (como Chapeuzinho Vermelho, João e Maria, João e o Pé de Feijão). O conto A Rainha das Abelhas, de Mariá de Rezende Araújo, segue as informações, a estrutura e o padrão da história original, mas a versão exata é a criação da contadora. Existem muitas variações da lenda O Negrinho do Pastoreio, que é contada em Libras por Roger Prestes. Ele escolheu a sua forma preferida de contar de uma maneira visual, estética e clara em Libras, mas a lenda é basicamente igual às outras versões. Nas fábulas de Esopo (como O Sapo e o Boi e A lebre e a Tartaruga) e nas histórias da bíblia (por exemplo as de Noé, David ou Moisés, ou as parábolas de Jesus) temos a mesma flexibilidade de contar o enredo com as nossas próprias palavras, porque elas fazem parte da tradição oral (não escrita) que, por sua vez, fazem parte do folclore. Esse tipo de reconto pertence à vida e à identidade cultural e social dos brasileiros e é importante que exista também em Libras, para que as pessoas surdas possam ter as mesmas informações e o mesmo prazer que os ouvintes têm em conhecer as histórias.

22.2.2. Adaptação

As adaptações de histórias traduzidas para Libras são destacadas especialmente por adaptarem seu enredo para incluírem nele personagens surdos (MOURÃO, 2011). Quando contamos os contos tradicionais em língua de sinais, apesar de mantermos o enredo básico, adicionamos esses elementos culturais da comunidade surda. Já vimos no capítulo 8, que no conto Cinderela Surda, a maior parte do enredo fica igual ao tradicional (a Cinderela é proibida de ir ao baile, mas a madrinha a ajuda ir, ela encontra o Príncipe, foge à meia noite etc.), mas existem adaptações feitas especialmente para os surdos, como aquela em que a Cinderela e o Príncipe são surdos e, em vez de perder o sapato, ela perde a luva, que é uma marca surda porque enfoca as mãos (em outras ela perde o aparelho auditivo). Nas versões diferentes do conto Os Três Porquinhos, ou todos são surdos, com comportamento surdo, ou os porquinhos são surdos e o lobo é ouvinte.

Essas alterações nem sempre eram comuns e não são iguais em todos os países. Um surdo britânico observou que, até os anos 80, os surdos que contavam histórias clássicas em BSL não as adaptavam, porque acreditavam que isso era uma falta de respeito aos ouvintes por estarem mexendo nas suas narrativas. Isso também acontece com as histórias da bíblia. Algumas pessoas acham que não devem adaptá-las, mas há surdos que já contaram adaptações em que foram incluídos personagens também surdos. A surda britânica, Penny Beschizza, contou a história de Moisés, a travessia do Mar Vermelho e a divisão das águas, mas incluiu no enredo um grupo de surdos. Estes ficaram por último na travessia e demoraram muito porque estavam sinalizando entre si e admirando os peixes na água. Estavam em perigo de os egípcios os pegarem ou de morrerem afogados quando as águas se fechassem, mas Deus mandou alguns raios e relâmpagos como distratores e eles conseguiram chegar na praia vivos. Depois desse reconto com adaptação, um surdo disse que foi a primeira vez na sua vida em que sentiu que a bíblia realmente o tocou como surdo.

22.2.3. Tradução

Às vezes, usamos o termo tradução de uma forma mais ampla para falar de qualquer forma de se levar uma história de origem não surda para a comunidade surda. Assim, o reconto e a adaptação se incluem nessa definição e são tipos de tradução. Mas, também, podemos partir de uma perspectiva mais estrita, usando a ideia da tradução para as transposições que seguem mais fielmente as palavras de um texto. Vemos muito disso nas traduções de materiais educacionais que têm o objetivo de ensinar português através da Libras. Nesse caso, muitas vezes, vemos as palavras do texto ao lado dos sinais, como num texto em português escrito e em Libras escrita (em SignWriting), a exemplo das lendas Onze Histórias e Um Segredo: desvendando as Lendas Amazônicas (SALES, 2016). Porém, muitas vezes, vemos vídeos com o texto em português escrito e a tradução em Libras sinalizada, como O Pequeno Príncipe, feito pelo Projeto Acessibilidade em Bibliotecas Públicas, ou as traduções dos contos de literatura brasileira (como os de Machado de Assis) feitas pela Arara Azul em 2005. Alguns são simplesmente um vídeo da contação em Libras com legendas do texto original em português e outros como um e-book, com um trecho de texto maior em uma parte da tela e a versão em Libras na outra. Nessas traduções, os textos escritos em português e os textos sinalizados em Libras são mais parecidos, porque o principal objetivo da tradução é recriar, o máximo possível, as mesmas informações produzidas no texto em português na versão em Libras. Isso também acontece nas traduções de letras de música em vídeos do YouTube. Há traduções de uma forma de Libras muito estética e criativa e que não seguem as palavras uma a uma, mas sempre têm uma relação mais de perto com o português porque as palavras do texto em língua portuguesa são reconhecidas como importantes. A tradução da canção Vagalume, de Tom Min Alves (da música Vagalumes, do grupo Pollo) é um bom exemplo desse tipo de tradução.

Até agora, falamos de recontos, adaptações e traduções do português para Libras, mas lembramos que eles também existem na outra direção, de Libras para português, embora as suas gravações sejam menos comuns. Existem pesquisas sobre as narrativas pessoais dos surdos feitas em Libras e escritas em português (MATOS, 2008). Algumas histórias contadas em Libras já foram escritas em livros. A piada no livro Adão e Eva (KARNOPP; SILVEIRA, 2014) foi contada originalmente em Libras e depois publicada num livro escrito em língua portuguesa. Veremos também que, em certas ocasiões, os intérpretes são chamados para interpretar os eventos literários de Libras na modalidade vocal, ou seja, para o português.

22.3. Tradução literária

Antes de fazer uma tradução de português para Libras, sempre precisamos refletir sobre o objetivo desse trabalho. É didático, talvez para ensinar a língua portuguesa através da Libras ou o conteúdo da obra literária? É para fornecer aos surdos o acesso às informações do texto em português? Ou para proporcionar prazer ou gerar outras emoções no público surdo iguais às geradas no público ouvinte?

Numa tradução literária, o foco não é tanto o conteúdo ou as informações, mas sim os efeitos estéticos. Para traduzir textos artísticos entre duas línguas, é preciso entender as normas literárias dessas duas línguas. Simplesmente traduzir um texto literário de português para uma forma de Libras cotidiana ou não estética pode levar o conteúdo, mas não a beleza, até o público surdo, de modo que ele possa dizer “entendi” - mas esse público não vai sentir as mesmas emoções do ouvinte. Por isso, os tradutores e intérpretes de Libras devem entender bem as normas literárias da Libras e da comunidade surda antes de fazer as traduções planejadas.

Além de perguntar qual o objetivo da tradução, podemos também questionar: qual o objetivo original da obra literária? É para o público rir, sorrir, chorar ou admirar? É para aprender novas coisas, pensar com outro ponto de vista e entender a vida e as experiências de outras pessoas? A resposta a essas perguntas vai influenciar na tradução.

22.3.1. Tradução literária de português para Libras

Já vimos, nos capítulos anteriores, que existem elementos linguísticos e culturais que fazem parte das normas surdas literárias em Libras. Para se fazer uma boa tradução literária de português para Libras, precisamos entender bem as regras literárias de ambas as línguas. Sabemos que em língua brasileira de sinais devemos considerar o ritmo, as configurações das mãos, o espaço, a velocidade, as perspectivas múltiplas e simultâneas, a incorporação, o uso de expressão facial e do corpo e os classificadores. Thatiane do Prado Barros (2015) oferece um bom resumo dessas considerações para a tradução em sua pesquisa, na qual traduziu os poemas de Carlos Drummond de Andrade para Libras.

Klícia Campos (2017), em sua investigação sobre a tradução de literatura de cordel, fala das etapas necessárias para tradutores (sejam eles surdos ou ouvintes) atingirem uma boa tradução literária em Libras. Ela sugere que se pode começar com uma tradução intralingual, de português literário e estético para o português não literário - nos casos em que a linguagem do texto de origem apresente elementos difíceis, como palavras arcaicas ou regionais. O próximo passo é fazer uma tradução interlingual, do português para a Libras. E a última etapa seria mais uma tradução intralingual, de Libras não estética para Libras estética, seguindo as normas literárias da comunidade surda brasileira.

O trabalho de Campos foca nas competências tradutórias necessárias para se fazer a tradução de um folheto de cordel para Libras, com olhar especial para os desafios que esta cria para os tradutores surdos. A comunidade surda tem acesso limitado à herança cultural da região nordeste, e isso já é um desafio a ser enfrentado pelos tradutores. Por exemplo, alguns surdos não têm conhecimento, como os demais brasileiros têm, sobre a vida e os dialetos nordestinos por não receberem uma educação consistente e completa no sistema oralista ou no inclusivo. Esse conhecimento é importante para qualquer tradução, ou seja, para a tradução literária em Libras também. Talvez um público surdo não tenha conhecimento de conceitos daquela região do Brasil (como o de “sertão”), ou eles até os conheçam, mas não sabem quais os sinais que já existem para falar dessas coisas. Além disso, alguns tradutores surdos que conhecem bem a língua e a cultura da região não estudaram as normas literárias da Libras, porque elas são pouco debatidas, não fazem parte do currículo dos alunos surdos na escola, portanto, não sabem como criar uma tradução estética.

22.3.2. Traduções e interpretações de Libras para o português

As traduções de Libras para o português são ainda mais raras do que as realizadas na direção contrária, mas são importantes para que o público ouvinte que não domina a língua de sinais entenda a riqueza da literatura em Libras.

Uma tentativa de criar uma tradução literária de Libras para o português veio do tradutor e professor Markus Weininger com o poema haicai Peixe, de Renato Nunes. A tradução dele segue a forma tradicional desse gênero e captura o conteúdo. A tradução cria um poema agradável em português, mas não vemos nada nela que sugira que há tanta ambiguidade na imagem, ou que haja apenas uma configuração de mão e que cada sinal começa no ponto final do sinal anterior, porque não é possível incluir todos esses elementos numa só tradução.

Ondas do sol irradiando
Peixe flutua na água, liberdade
Choque na parede invisível

O público ouvinte, embora não entenda Libras, pode ver a produção no corpo do artista e entender muitas coisas - como a emoção - simplesmente por ver a performance (SUTTON-SPENCE; QUADROS, 2014; FELÍCIO, 2017). É comum ver as traduções de literatura em Libras produzidas juntamente à fonte original. Por exemplo, num vídeo com legendas o leitor pode ver o poema e ler a tradução simultaneamente. Numa interpretação vocalizada, isso também acompanha a performance incorporada de Libras e o espectador pode ver o poema e ouvir a tradução. Nessas situações, as informações disponíveis ao público são maiores.

Às vezes, as pessoas até perguntam se é realmente necessário traduzir as obras literárias de Libras que são muito visuais, porque, com certeza, os ouvintes conseguem entender, não é? Mas pesquisas mostram que, apesar de um poema ou uma narrativa ser muito visual, os ouvintes que não dominam Libras não os entendem bem. Quem não domina a língua de sinais não sabe se a mão do artista faz um sinal ou um classificador, ou se é parte da incorporação (SUTTON-SPENCE; QUADROS, 2014; FELÍCIO, 2017).

Às vezes, apenas o título basta para ajudar o público a entender a obra, porque ele norteia o espectador a usar o conhecimento de mundo para entender os sinais no contexto. A obra Golf Ball, de Stefan Goldschmidt, apresenta imagens fortemente visuais, mas não usa vocabulário de nenhuma língua de sinais. Quando sabemos que se trata de uma bolinha de golfe, isso já abre um contexto para se imaginar tacos de golfe, o anteparo, a bandeirinha e o buraco. Sabendo tudo isso, fica fácil acompanhar. Sem saber que se trata de golfe, interpretá-la é um desafio para quem não domina Libras.

Há um equilíbrio entre a informação visual e linguística nos textos literários e o que é necessário para a compreensão. Poemas ou narrativas com maior informação linguística vão exigir mais interpretação linguística, mas textos com menos informação desse tipo e mais informação semiótica vão exigir menos interpretação linguística. Nesses casos, o tradutor-intérprete pode deixar o público ouvinte que não sabe Libras focar nos elementos visuais, sem a tradução para português.

Como exemplo, podemos comparar o poema Lei de Libras, de Sara Theisen Amorim e Anna Luiza Maciel, com o poema Como Veio Alimentação, de Fernanda Machado. Lei de Libras tem muitos sinais de vocabulário, como libras, lei, adquirir, produção, sinalizar, comunicar, expressão-facial, valorizar, poesia, humor, teatro, vernáculo-visual, é, sempre, nós e, assim, podemos traduzir as palavras para que o público entenda o conteúdo e deixar as pessoas curtirem o ritmo e a performance elegante e agradável. Por outro lado, nenhum sinal no poema Como Veio Alimentação é um sinal do próprio vocabulário da Libras. Cada sinal necessita de uma sentença curta na tradução em língua portuguesa, o que “atrapalha” a poesia do texto. Mas o poema é muito visual, então a poeta pode explicar, antes da apresentação, que o poema trata da desigualdade entre os trabalhadores rurais e os habitantes urbanos e até pode avisar que é preciso perceber o comportamento dos dois personagens incorporados no poema. Depois, não é necessária uma tradução durante a sua apresentação.

Alguns artistas surdos (e seu público) preferem não ter interpretação durante uma performance literária, porque a voz tira a atenção do corpo do artista, onde fica a produção. Nessa situação, o artista pode apresentar uma tradução escrita antes da sua apresentação e depois o público assiste à performance sem interpretação. Uma opção para a tradução escrita é de seguir uma forma tradicional, usando as normas da literatura de língua portuguesa. Por exemplo, podemos traduzir um poema em Libras para o português escrito com versos e estrofes para lembrar ao público que eles irão assistir a um poema. Outra opção é a de o artista explicar os sinais que o público precisa saber e depois deixar as pessoas usarem essa explicação durante a apresentação.

Como sabemos que a literatura sinalizada é bastante visual, uma proposta que veio de Kenny Lerner (da dupla americana Flying Words Project) é falar apenas as palavras necessárias para esclarecer o suficiente para o público poder “ver” e entender a imagem que o artista apresenta. Assim, as palavras são “dicas”, suficientes para esclarecer a imagem.

Até este ponto, falamos da tradução entre duas línguas, mas existe também a opção de tradução de textos literários por meio de imagem. Já sabemos, contudo, que as ilustrações ajudam o leitor a entender melhor um texto. Vamos falar mais sobre isso no próximo capítulo.

resumo

22.4. Resumo

A tradução de literatura é uma parte importante dos estudos de literatura em Libras. Historicamente, a tradução da literatura do português para a Libras ajudou no desenvolvimento das normas literárias da comunidade surda com o uso da linguagem estética. A origem não surda de uma obra não necessariamente significa que esta não utiliza as normas surdas. Os recontos têm o objetivo de recontar uma história tradicional de Libras em qualquer forma e, muitas vezes, têm a intenção de entreter. As adaptações incluem personagens ou comportamentos surdos para criar uma ligação mais forte com o público surdo. A tradução mais fiel é mais comum nos contextos educacionais. As traduções podem acontecer do português para a Libras e vice-versa, cada uma trazendo seus próprios desafios. Vimos que os desafios para tradutores surdos e ouvintes vêm dos textos e das necessidades dos públicos surdos e ouvintes. De qualquer forma, uma tradução bem-feita pode abrir novos caminhos para a criação de literatura em Libras e até mesmo em português.

atividade

22.5. Atividade

Assista ao vídeo do poema de Fernanda Machado, Como Veio Alimentação.

  1. Pense nas ideias apresentadas nesse capítulo sobre tradução e interpretação.
  2. Quais as possibilidades que você viu para fazer uma tradução ou interpretação para o português?
  3. Quais os desafios enfrentados pelo tradutor ou intérprete, e pelos públicos?
  4. Qual você acha a melhor opção, para qual público?